VACINAS PARA PREVENÇÃO DA INFECÇÃO POR SARS-CoV-2 A E DA COVID-19

Por: Andréa Mendonça Gusmão Cunha, Laís Valéria Rezende Fiuza, André Gusmão Cunha 

Podemos dizer que as vacinas fazem parte da evolução da humanidade, protegendo a população mundial contra várias doenças infectocontagiosas. Contudo, as etapas para o desenvolvimento de vacinas devem cumprir regras rigorosas, onde é necessário provar não só a eficácia e eficiências, mas a segurança da imunização. Só foi possível erradicar o Vírus da Varíola no mundo com os programas de imunização em massa, aplicados a nível mundial. O Vírus da poliomielite, agente da paralisia infantil, foi erradicado na maioria dos países devido aos programas de vacinação. Temos vacinas para prevenção do sarampo, rubéola, caxumba, hepatite A, hepatite B, meningite meningocócica (ACWY), HPV, Influenza A e B, dentre outas doenças infecciosas de etiologia viral ou bacteriana.

Existem vários tipos de vacina de uso humano, alguns tipos bem conhecidos como as vacinas compostas por vírus inativados, como a vacina para prevenção da raiva, a vacina Salk (prevenção da poliomielite), vírus atenuados, como a Sabim (prevenção da poliomielite), as vacinas recombinantes de subunidades proteicas como a vacina para prevenção da hepatite B, as vacinas compostas por subunidades proteicas do tipo VLP (Virus Like Particule/ Partícula Semelhantes a Vírus), como a vacina para prevenção da infecção pelo HPV. Dentro do avanço biotecnológico, temos várias vacinas em desenvolvimentos, usando novas tecnologias como as vacinas de DNA, vacinas de RNAm, vacinas com vetor viral, todas já aplicadas a nível de ensaios clínicos, sem liberação para uso na prevenção de doenças infecciosas humanas.

Com a pandemia causada pelo novo Coronavírus (SARS-CoV-2) que possui alto grau de infecciosidade e disseminação, estamos observando uma corrida biotecnológica aplicada ao desenvolvimento de vacinas. O mundo está buscando uma vacina, vários países estão investindo milhões dólares em busca de uma vacina eficiente e segura para produção em massa. Para o desenvolvimento de vacinas temos 3 etapas básicas:

Fase Exploratória: envolve pesquisa e identificação de moléculas estruturais promissoras (antígenos virais), com utilização de pesquisas "in vitro", usando cultura de células para replicação viral. Nessa fase, foi verificada que a Proteína Spike (Proteína S) do SARS-CoV-2 é imunogênica e capaz de induzir a produção de anticorpos específicos e neutralizantes.

Fase pré-clínica: ocorre a validação da vacina em organismos vivos, usando testes realizados em animais de laboratório, início dos estudos de eficácia e segurança "in vivo".

Fase clínica: testagem realizada em humanos, essa etapa é subdividida em três fases de testes.

  • Fase 1: avaliação preliminar, precoce, com poucos candidatos voluntários, adultos, sadios, susceptíveis a infecção viral, que serão monitorados e avaliados periodicamente;
  • Fase 2: nessa fase são realizados testes em centenas de candidatos, onde são avaliadas informações sobre quantidade de doses da vacina em estudo, concentração que serão usadas na próxima fase, testes para avaliar eficácia e efeitos colaterais. Candidatos voluntários são escolhidos de forma randomizada (aleatória) e são monitorados e controlados;
  • Fase 3: ensaio realizados em larga escala, os testes são realizados em milhares de candidatos, com o objetivo principal de avaliar de forma definitiva, eficácia, efetividade e segurança, além dos efeitos adversos, reações pós-vacinal.
  • Fase 4: Etapa de liberação do registro sanitário, vacina liberada para população, centena de milhares de pessoas serão imunizadas.

A pandemia causada pelo novo Coronavírus (SARS-CoV-2) agente etiológico da COVID-19 só será totalmente controlada no mundo após a descoberta e produção de uma vacina segura e eficiente. Na tabela 1 apresentamos as vacinas em desenvolvimento a nível mundial que estão na Fase Clínica (Testagem em Humanos). Na fase clínica, até a data de hoje (17/06/2020), segundo a OMS, temos 10 vacinas em desenvolvimentos na fase clínica. Contudo, apenas uma dessa vacinas está na fase 3, onde a vacina será aplicada em milhares de pessoas para avaliar a eficácia e segurança, a vacina de Oxford (AZD1222). Essa vacina usa um vetor viral não replicativo (ChAdOx1), que é uma versão enfraquecida de uma Adenovírus de Chipanzé, associado a resfriados leves nessa espécie e que não infecta humanos. Esse vírus foi modificado geneticamente para carrear o gene da Proteína Spike (Proteína S) do SARS-CoV-2, localizada no envelope viral, com o objetivo de sensibilizar os indivíduos imunizados e fazer com que o sistema imune reconheça e produza anticorpos específicos anti-Proteína Spike do novo Coronavírus. A vacina da Oxford, única na fase 3, vai testar 10 mil pessoas na Inglaterra e 2 mil pessoas no Brasil, sendo selecionados os estados de SP e RJ. O Brasil é o primeiro país, além do Reino Unido, a testar a primeira vacina em fase 3 para prevenção da COVID-19 no mundo. Essa seleção aconteceu porque, atualmente, o Brasil é o atual epicentro da Covid-19 na América Latina, sendo os estados de SP e RJ, onde se concentram as taxas mais elevadas de transmissibilidade. Os voluntários serão submetidos a testes para avaliar que não foram infectados pelo SARS-CoV-2, a prioridade são os profissionais da saúde que trabalham na linha de frente contra a COVID-19, pois possuem um maior risco de serem infectados. Outros critérios para aderir ao programa como voluntário é a idade, deve ter entre 18 e 55 anos e não apresentar fatores de risco associado a quadros graves de COVID-19. A imunização deve iniciar no mês de junho, em um período de 3 semanas, com monitorização e acompanhamento dos voluntários para análise do desfecho. Para análise de segurança e eficácia, metade dos dois mil candidatos irão receber a vacina de Oxford e a outra metade uma vacina placebo (sem nenhum efeito protetor). Em SP a seleção dos voluntários será realizada pelo CRIE e UNIFESP, no RJ a seleção será realizada pela rede IDOR.

Na Tabela 2 apresentamos os dois ensaios de vacinas brasileiras mais promissoras em estágio pré-clínico. A vacina que está sendo produzida pela empresa USP/INCOR utiliza a proteína Spike da SARS-CoV-2 na produção de uma vacina recombinante do tipo VLPs (Virus Like Particles/ Partículas semelhantes a Vírus). Essa tecnologia de vacina é muito segura, pois utiliza apenas a proteína viral para formar uma partícula semelhante ao vírus, porém sem conter material genético viral, mimetizando uma partícula viral oca, sem RNA do SARS-CoV-2, mas capaz de desencadear uma resposta imune específica. Essa vacina, atualmente, está na fase pré-clínica, testada em animais de laboratório, e tem a previsão de concluir a primeira fase até o final do ano de 2020. Já a vacina produzida pela empresa INCTV/FIOCRUZ modificaram geneticamente o vírus da Influenza sazonal (Vetor Viral replicativo) para que ele produza tanto as proteínas dele como também a proteína Spike da SARS-CoV-2, para que possa ser desenvolvida uma vacina bivalente, servindo contra a Influenzavírus e o novo Coronavírus.

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FONTES:

CALLAWAY, Ewen. THE RACE FOR CORONAVIRUS VACCINES. Nature, v. 580, p. 576-577, 2020. Disponível em: <https//doi: 10.1038/d41586-020-01221-y>.

MULLARD, Asher. World Report COVID-19 vaccine development pipeline gears up. The Lancet, v. 395, n. 10239, p. 1751-1752, 2020 . Disponível em: <https://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31252-6>.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Draft landscape of COVID-19 candidate vaccines - 15 May 2020. Who, n. June, p. 3, 2020. Disponível em: <https://www.who.int/who-documents-detail/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines>.

https://www.precisionvaccinations.com/vaccines/bnt162-sars-cov-2-vaccine

https://jornal.usp.br/ciencias/potencial-vacina-brasileira-contra-covid-19-comeca-a-ser-testada-em-animais/